Linhas Infinitas
Claudia Calirman

Texto da Exposição Sem Fim - Lurixs, Rio de Janeiro - 2008 / Versão original em inglês: Elizabeth Jobim: Endless Lines - Lehman College Art Gallery, Nova Yorque - 2008 - Tradução Liz Hmoriconi

 

 

Onde começa e onde  termina uma obra? Há ponto de partida ou ponto final? Um fluxo intermitente de linhas e volumes azuis toma os espaços brancos das telas. Aos poucos se apropriam do espaço ao redor e criam um ambiente arquitetônico. Corte e continuidade, fluxo e interrupção, moradas parciais e ninhos, espaços inertes e ativados criados por linhas que avançam continuamente, entrando de uma tela para a outra. A obra de Elizabeth Jobim está em processo continuo, em fluxo permanente, sempre a se desdobrar em novas formas. Estabelece conexões de um painel ao seguinte ou rupturas e separações repentinas.

 

O ponto de partida do trabalho de Jobim está nas pedras irregulares que ela coleta no Rio de Janeiro, sua cidade natal. A artista cria pequenos desenhos volumétricos baseados na forma e na aparência das pedras. Estes desenhos, ao olhar cuidadoso, revelam o princípio de compreensão da gênese de suas telas de grande porte. Suas linhas se combinam de um painel ao outro em uma série de superfícies quadradas e retangulares, cobrindo as paredes das galerias, no Rio de Janeiro e em Nova York. O trabalho se renova constantemente e gera diversos padrões e configurações. Na pintura-instalação de Elizabeth Jobim, a ordem dos painéis pode ser alterada de forma a compor diferentes narrativas. É um trabalho onde as partes se conectam umas com as outras para criar o todo. Retas se transmutam em formas volumétricas ou retornam ao seu estado original.

 

As linhas traçadas por Elizabeth Jobim são tão ousadas como incertas; retas e contorcidas, firmes e intermitentes, finas e largas, planas e volumosas. É como se procurassem vencer obstáculos para adentrar espaços. Aparentam se basear em abstrações geométricas, mas têm, no entanto, suas raízes na figuração.

 

Fundamentada na sólida tradição latino-americana da abstração geométrica, Elizabeth Jobim subverte o modo com que os artistas das décadas de 40, 50 e 60 empregavam linhas e volumes – como expressão lógica, racional e semi-científica do desejo utópico pela tecnologia e a industrialização. Diferentemente da obra dos concretistas brasileiros, cuja abstração geométrica era predominantemente um jogo conceitual de organização de formas no espaço, as formas de Jobim são, na verdade, baseadas em naturezas mortas. Suas telas jogam com o ato de revelar e ocultar, entre a abstração e a figuração.

 

Em suas telas, Jobim remete às grandes colagens de Henri Matisse, mais especialmente a sua instalação arquitetônica ‘La Piscine’ (verão de 1952) com sua composição simplificada de grandes espaços, e figuras marcantes semi-abstratas em recortes azuis feitos à mão livre.

 

Jobim emprega azul ultramar e aplica a tinta a óleo com rolos à moda dos pintores de parede, cobrindo suas telas de forma desigual, criando pontos e manchas que ativam o branco ao fundo através da luminosidade e transparência do azul.

 

A obra de Jobim evoca as telas monocromáticas de Yves Klein com seu azul característico (que ele patenteou como o International Klein Blue), e sua ligação com o transcendental, a imaterialidade e a espiritualidade. As instalações arquitetônicas de Jobim lembram templos de meditação modernos. A tranqüilidade de seus espaços internos e a energia com que eles impregnam o espaço ao redor de si são inseparáveis e interdependentes.

 

Ao impregnar o espaço através do azul ultramar, a obra remete ao uso que Hélio Oiticica fazia da cor. Como Oiticica escreveu na década de 60, ele procurava libertar a cor de seu suporte pictórico, sem amarras no espaço. Oiticica criava ambientes sensoriais nos quais a experiência do observador não se limitava às suas retinas, mas propiciava uma relação mais corpórea com a cor. Jobim também conjuga uma percepção da cor que transborda as limitações da fisicalidade e da moldura pictórica, submerge o espectador no azul. Ao adentrarmos o espaço, somos arrebatados para dentro da instalação, absortos pelo seu fluxo elegante de formas e linhas.

 

Filha de Antonio Carlos Jobim – pai da Bossa Nova – Elizabeth Jobim demonstra a influência da música e suas conexões com tempo, intervalos e composição. Sua obra joga com continuidade e rupturas, como notas musicais arranjadas no tempo, que tropeçam, gaguejam, se perdem e se reencontram repetidamente. Nesse jogo sem fim – sem um final definido, nem um ponto de partida isolado - as linhas seguem dançando, vibrando em azul, ao passo de sua própria cadência.