O Lugar dos Enigmas Possíveis, Sublime Invólucro

Jorge Emanuel Espinho

Rio de Janeiro - 2015

 

No encontro com a obra de arte somos frequentemente remetidos a um lugar de expectativa passiva, a uma paisagem árida onde impera uma não-ação/interação meramente contemplativa,  e apenas interiorizadora dos frugais conteúdos já definidos e transportados naquela obra. Esta, com excessiva regularidade assim nos encara fixamente, fechada e altiva, segura e esperta, orgulhosa, já bem assente no alto de sua categoria rigorosa, pretensiosa e hermética, de objecto artístico. E assim ela é tantas vezes: irônica e apenas bela, autoreferente e logo fechada, cativa, rasteira, estéril. Com demasiada frequência, ao intentar reduzir-nos a uma condição de meros espectadores sedentos de qualquer curva intensa, côr escura, ou belo truque, a obra se anula e se minimiza; abdicando, logo a priori, de sua força e de seu potencial, por maior principio elevados e infinitos. Assim, claramente, ela desconsidera uma sua função primordial e pertinente nesta existência: iluminar em luz sutil o ilegível, mostrar em campo aberto esse impossível, e assim sendo, eis um invólucro sublime: o lugar maior dos enigmas mais possíveis.

 

Parece ser que esta tão rara e tão simples ambição - transformadora na sua sensível mas inegociável abrangência indefinida -, é uma das mais fundamentais e preciosas características que atravessam a já larga obra de Elizabeth Jobim. E assumindo desde já a parcialidade subjcetiva desta nossa leitura - que nunca pretenderá resumir esse todo intraduzível que é a obra -, queremos aqui sublinhar uma certa recusa firme desta longa construção em se assumir finita, objectiva, ou mais definida. A obra de Jobim rejeita - em seu mais profundo sentido, em seu mais fino conteúdo ou essencial caminho -, o ser decifrada e até clara. E é também esta teimosa e fundamental direção ausente - porque ela é terreno puro que nunca aceita ser apenas mapa -  que se mantém e que alimenta, contínua e incessantemente, o coerente dissertar questionador e exploratório desta artista. 

 

O mistério irônico que sempre acompanhou este percurso aberto – de temperamento forte e irrecusável, de uma certa subjetividade sensível e disponível mas exigente, e claramente orientada em relação com o sujeito que o observa e sente – é uma espécie de suporte a um vazio maior por preencher. A obra de arte parece aqui assumir-se como estrutura aberta, indutora de uma interioridade espacializada, de conteúdo altamente sutil, e propositadamente indeterminado. É o sujeito que  efectivamente dá aqui vida à obra, numa relação tão incontornável quanto etérea e volátil. Mas, e bem ao contrário de outras obras contemporâneas em que essa manobra é diluída e disfarçada, como que decorada e meio escondida por entre floreados formais de diverso tipo, com Beth Jobim parece ser uma certa crueza despida e bem direta - francamente assumida na mais notória natureza funcional da obra -, o meio mais explícito de nos mostrar suas abertas e interdimensionais fronteiras.

 

Podemos hoje sublinhar claramente que a produção de Beth Jobim chegou sólida na construção de um lugar em que a linha e a cor, o objeto e o fundo, o sentido e o espaço, trocam indefinidamente de razão e de paragem, sempre avançando e mais elevando a tal recusa de resposta ou definição, simples conteúdo ou direto sentido. Antes, apetece falar de uma certa transcendência experimental, sempre em crescendo, na nossa relação com a obra e com a essência maior desta artista. Esta escapa, claramente e no seu espírito mais elevado, aos códigos mais comuns de simples entendimento e de fácil catalogação, a que nos fomos, talvez, tristemente habituando.

 

O profundo eixo largo e solto desta obra - muito mais do que só incerto, vago ou indefinido -, parece querer ser um ambiente emocional puro, altamente receptivo, potencializador e limpo, parado vivente, como o branco mais sutil de uma tela em branco. Mas com Beth Jobim é a côr única que assume, e mais claramente a partir dos anos 2000, uma presença psicológica verdadeiramente essencial, ao intuir e abrir distintamente na percepção do espectador, uma intensidade espacial interior que aqui lhe aparece como que exteriorizada. Esta ponte animada entre o sujeito e a obra, tão delicada e tão subjetiva que a cor representa e corporiza -  sendo aqui pano de fundo e firme centro simultâneos da ação mais possível da arte - talvez configure a grande vitória do caminhar da artista. Esta só é conseguida após anos de experimentação, de descoberta, de risco, e de um corajoso avançar sempre. E assim ela agora nos encara, e nos acolhe: suavemente exigente mas intimista, uma força viva e calma e apenas lentamente segredada, num farto contraponto a sua incontornável e mais que infinita potência.

 

Então, e como vimos em 2013 no MAM do Rio de Janeiro com seus Blocos - pinturas que desceram para o chão, e que já como troncos sólidos se erguem, e se elevam -, bem mais do que a inicial estranheza e incerteza, é uma certa sacralidade silenciosa, potente e antiga, que domina agora a obra da artista, bem como nossa deferente relação com ela. Isto se dá através da imersão numa instalação algo mágica - em que a soma do conjunto reforça a tensão e a potência de cada parte/bloco, numa retroalimentação incessante, vital e espessa -, na qual sentimos claramente sermos lentos visitantes, limitados pela vontade de entender e de interpretar, aquilo que apenas parcialmente poderemos ativar e compreender. Beth Jobim parece aqui conduzir-nos a um alto cume - deserto habitado, intenso e pleno -, da paisagem farta que foi construindo ao longo dos anos.

 

Mas nessa solidão ruidosa e cromática que nos acolhe, tão dura quanto altiva e imanente, coincide germinar também, lentamente, a semente escura de uma fundamental disrupção: a destruição, poética e delicada, da própria perspectiva: afinal, o reduto mais essencial do eu/sujeito. Os Blocos configuram-se - na sua apresentação enquanto instalação/conjunto -, como um simbólico labirinto interminável e infinito em que sua impenetrabilidade é apenas acompanhada por sua frescura vibrante e solene; e em que, seja qual for o sujeito ou o lugar/perspectiva da observação/relação, apenas colheremos resquícios parcos e breves de tudo o que ali se joga, se respira, e acontece. A desmultiplicação ad infinitum das possibilidades e perspectivas de interação claramente contidas na obra, apenas sublinha a pequenez e a redundância de nossa intencional capacidade intelectual, bem como a artificialidade limitada - porque forçada - de nossa abordagem. O desdobramento tão simples, e ao mesmo tempo tão ilimitado e incompreensível, que ali espreitamos, serve-nos de sinal claro do nosso apressado e estreito estado. A instalação da artista reduz assim - na sua vivência mais pragmática -, o espectador a um mero testemunho, que apenas mal valida a existência plena desta obra. Pois essa paira sempre, lá bem alto, acima de nossas razões, de nossos gostos, de nossas mais que restritas capacidades; assumindo-se, nesse forte contraste tão terminante, como um percurso/roteiro abstrato de inabarcável poética, de maior mistério, e de um alcance sensível e espraiado, intangível e absoluto.

 

Assim aqui descobrimos, que ao contrário da tal expectativa passiva e redutora que tão correntemente encontramos e vivenciamos na obra de arte, Beth Jobim nos introduz a uma imantada realidade que nos ultrapassa, sim, mas com alto crédito e de margens intocáveis. De certa forma, se olharmos para os Blocos sem querer ver ou entender, sentindo e intuindo apenas, seremos subtilmente recompensados por essa tal largueza abstrata e sensível, - poética e delicada, mas de uma autoridade e robustez incontornáveis -, que apenas julgaríamos encontrar na intimidade mais primordial de nossa existência. Essa qualidade simultaneamente universal e particular, intimista e extensa destas obras, seria talvez o mais desejável denominador comum de qualquer ato artístico; visto este enquanto símbolo máximo da prática da vida, e resultado superior da mais criativa liberdade. Aqui, deslumbramos inteiros nesta sua expressão, tão funda e tão rica, e formalmente - com espanto -, tão simplificada.            

 

Se a meio da década de oitenta Elizabeth Jobim participa já da célebre exposição Como vai você geração  80?,  - que viria a revelar-se um marco na história das artes visuais brasileiras, reunindo 123 artistas das mais diversas idades, tendências e formações -, a experimentação e a busca  marcam claramente a ação criativa do seu trabalho na época, bem como o contato com outros artistas como Jorge Guinle ou Tunga. Questões como uma certa imprecisão significativa da forma, o figurativo e o conceitual, a própria tradição pictórica do desenho de observação e a natureza morta, e um traço que aparece por vezes aguado mas é sempre forte e expressivo, surgem já nos primeiros desenhos e estudos da artista. A fluidez desse traço grosso, solto e energético, aponta já claramente para uma leitura fortemente sensorial e subjetiva, psicológica e livre, do mundo e do objeto. 

 

A própria história da arte é incluída por Beth Jobim em seu trabalho, na série de desenhos a óleo e carvão em que visita e repensa as formas das esculturas Rapto das Sabinas, do flamengo maneirista Giambologna. Ou ainda Laocoonte e seus filhos, de escultor helenista desconhecido do séc. II A.C. O resultado são obras em que à ordem plácida do mundo ordenado - do drama e do belo -, se contrapõe a força do imparável movimento que gere todas as coisas; se ensaia a exploração plástica de uma interioridade pulsante e libertária comum a todos os tempos; e onde, de certa forma, se afirma a supremacia do invisível, do indefinível, do emocional. Hoje, olhando esses trabalhos da artista, descobrimos claramente os esboços firmes - já carregados de poética e sensação - de toda uma obra questionadora da relação entre a linha e a côr, entre o conteúdo e a essência, entre a forma e a fronteira. Jobim desenha sobre papel, e seu traço solto e bem marcado é acompanhado por uma cor já livre de sua forma - de sua função mais lógica, de seu simples dever de preenchimento -, e já com essa forte presença sensitiva e subjetiva. A relação entre o traço e a cor assume claramente nuances de uma liberdade sem interdependência, bem como a ausência  - fortemente sublinhada  - de regras de qualquer forçada coexistência. E uma certa metafísica sensível paira já por aqui, lentamente, emanando...

 

É igualmente impossível não mencionar aqui as pedras e os tubos de tinta que a artista desenha e pinta, a grafite, a óleo, a guache e a acrílico, ainda durante a última metade da década de 90, e

nos primeiros anos da década de 2000. Se olharmos a pedra como o expoente máximo da imutabilidade e da não vida, Beth Jobim, ao retratá-la em grupo, com uma forte componente animada e pulsante, e claramente dotada de seu próprio ritmo, sentido e vitalidade, dirige nitidamente a nossa atenção para o que subtilmente se esconde por detrás da materialidade; sublinhando assim essa emoção pura que habita todas as coisas, e norteando sua obra de forma clara rumo a essa imaterialidade incerta e fundamental. Seus tubos de tinta, pintados com o mesmo óleo que sempre acompanhou, privilegiadamente, a tradição e a história da pintura, aparecem-nos igualmente dotados de uma vida animada - contorcidos em interação e movimento -, que os retira da condição de meros instrumentos passivos ao serviço superior do artista. E se alguma ironia nos é agora aqui sugerida, ela é certamente ultrapassada pelo questionamento claríssimo da função da arte enquanto mera representação/interpretação linear do real; bem como pela crítica à presunção do artista como agente privilegiado e convencido, e que assim domina e traduz superiormente as mais importantes particularidades objetivadas - e apenas por ele liminarmente traduzidas -, da vida, das formas, da realidade. 

 

Podemos aqui arriscar estabelecer  - e talvez até fosse esse sentido ignorado na altura pela artista -, que ao destituir de seus mais práticos e simples sentidos tanto o objecto/natureza-morta, quanto o próprio elemento/instrumento mais fundador e sublime da pintura - o óleo -, Beth Jobim abre irremediavelmente o caminho de sua arte, e assim o liberta dos pesos das mais clássicas e normalizadas tradições, processos e leituras. É portanto, desta radical e sensível forma, que a artista mais alarga o seu alvo aberto, num generoso e fundamental processo, também intuitivo: de emoção, abstração, presença e liberdade. Tendo visitado os clássicos e seus mais imprescindíveis métodos e componentes, a obra da artista se intemporaliza inteira nesse encontro, simultaneamente integrando e se livrando desses caminhos circunscritos e objetivos.                      

 

Talvez a produção inteira de Beth Jobim se pudesse chamar de Epistemologia Sensível da Cor, e esta não seria uma denominação demasiado ambiciosa nem apenas teórica, como vimos. Se a libertação e a ultrapassagem de métodos e de processos correntes na pintura foram por ela realizados na prática, a liberdade e a vivência daí decorrentes não são fruto de exercícios do pensamento, nem de formais manobras de estratégia. Igualmente, a força abstrata que sua obra contém hoje, já bem concretizada, e a pujança poética que a ativa e habita, foram sendo conquistadas ao longo de anos de (des)construção, invenção, experimentação e erro. E todo esse percurso está ali bem presente, num reino da cor, sublime e delicado, em que apenas uma vibrante subjetividade se deita, com a essência mais livre e mais funda, do único tom.

 

Ao chegar a povoar a cor com tal grau de entendimento e disponibilidade - conosco partilhando em pleno dessa possibilidade aberta -, a artista realiza uma delicada aproximação e uma final síntese possível, ao que vinha ensaiando desde seus primeiros trabalhos.      

 

No virar da década o acrílico escorre ainda por vezes no papel em branco, e um ar de esboço quer se insinuar, enganoso, pois lembra tempos já idos desta obra, mais do que aponta caminhos novos de seu futuro. Mas na realidade, a própria aquosidade desse traço - em que a tinta aparece dissolvida e escorrente -, parece ser também a firme assinatura, agora renovada, de sua decisão de não ser fronteira ou limitação, contorno ou definição, apenas linha. É nesse traço que corre desbotado - no qual parece querer fundir-se já todo o seu próprio fundo, nessa reunião fundamental que a artista consegue, acima de qualquer coisa -, que a cor se assume finalmente como objecto e espaço e história, inteiros. Afinal, um basilar interveniente, e cabal drama, de toda a obra.       

 

Assim encontramos nas obras de Beth Jobim da década passada grandes telas/módulos horizontais que se unem sobre toda a largura das paredes, e em que muitas vezes o branco é delimitado pela cor que o liberta e aprofunda; formando estruturas que parecem - como sempre - trabalhar mais um espaço emocional e referente ao tempo do sujeito, do que propriamente o espaço físico que imitam e mimetizam. Já sabemos que o que se arquiteta nestes pseudo espaços da materialidade é de outra ordem que não a do concreto, e que essa dualidade dramatúrgica é simultaneamente óbvia e sutil, clara e misteriosa, linear e abstrata. Estas estruturas/fronteiras parecem querer assumir-se apenas como algumas das possíveis, e assim gritar - disfrutando -, de sua/nossa liberdade, cantando, silenciosas, desses lugares interiores e nossos, que por vezes, confundimos com o próprio mundo.  

 

Mais para o final da década já a cor se alarga, ocupando por vezes um espaço inteiro, e agora, talvez mais sóbria e mais intensa, se deixa conviver com o branco, sempre o branco; e os módulos se desencontram, sobressaindo em profundidade, umas telas mais grossas do que outras, assim assumindo esse desencontro particular e intrínseco, numa relação tão íntima e reunida quanto libertada e madura. Muitas vezes, é desconcertante a não resposta a nossa incontornável expectativa - que aqui até parece ser testada e provocada -, e olhamos, reduzidos, do centro de uma qualquer sala, aqueles fartos labirintos que ali se abrem, tão belos e calmos e tão vivos, sem saber, ou melhor esquecendo, que não é de fora que se descobre ou se explica.     

 

Se encontramos derrubada e libertada a cor enquanto barreira e filtro do mundo sentido, se seguimos cravejados nessa viagem estática, tão intelectual quanto sensória - de uma paisagem que apenas muda para melhor se ir definindo, e de acordo com o nosso ritmo possível de entendimento -, é neste tempo que se reafirma o fluxo continuo na obra da artista, inundando fértil o espaço expositivo, invocando sempre uma sensorialidade e um psicológico navegantes, em rumo pleno, numa continuidade imparável, sem pausas ou minúcias. Assim,  chegamos a obras que se assumem tratar do todo, ao mesmo tempo intimo e geral, particular e  global, do momento e do eterno.

 

Se Oiticica liberta a cor de seu suporte, e se com ele mais livre ela esvoaça; Beth Jobim a segura de novo em corpo/obra, e agora, invólucro sublime de qualquer centro, ela é feita totem fixo em movimento. Ei-la, então assim: ancorada em seu mais que interno mergulhar, livre de ventos, de embates, de impulsos, e até mais livre, de um qualquer olhar, para existir.            

 

É desse fluxo interior continuo que tratam os Blocos, como já vimos. E ao invés de âncoras a prender o tempo ou o olhar, vivemos ilhas que navegam, abrindo o mar, suspensas desse interno movimento: chamando, vibrando, sentindo sempre.

 

Também aqui o vento de Oiticica é invocado, ou aparece, nesse andamento que faz a cor voar, hoje parada. Só que aqui, imóvel e intocada, ela só arde. Plena, inteira, e sempre eterna.

 

E assim, é ao contrário: levar todo e explosivo, o Mundo para o Museu. Eis a façanha.