A Persistência da Pintura
Paulo Sérgio Duarte 

5ª Bienal do Mercosul - Fundação Bienal do Mercosul, Porto Alegre - 2005

 
 

Estamos diante da pele do vazio. E ela nos envolve como a pele envolve nossa carne. A pintura nos abraça nesse ambiente que nos acolhe. Estamos recolhidos pelo espaço projetado pela artista como a pele recolhe nossos músculos, nossa carne, mas é pintura. Essa pele não tem nada a ver com os apelos orgânicos, quer ser só pintura, colada na parede, e nos envolve. O que Beth nos solicita tem tudo a ver à lição do poeta de uma “educação pela pedra”, agora quase literal.

 

Esse ambiente que nos abriga como numa capela, é preciso que se diga logo: é constituído por naturezas-mortas. Essa imensa natureza-morta, tão distante de vasos de flores ou frutas sobre a mesa é a forma contemporânea desse antigo gênero. A artista desenha e pinta diante de pedras mínimas, que cabem nas mesas de seu atelier. É da observação dessas pedras, de seus desenhos feitos e refeitos que nascem essas telas. Pequenas pedras que se tornam monumentos pictóricos.

 

Quando nos encontramos no interior das Aberturas estamos seguros que ela funda o lugar do corpo na contemplação da pintura, estamos inteiros diante de uma única e inteira panorâmica. A cidade havia inaugurado essa possibilidade de vermos uma múltipla paisagem em 360º, tão diferente do bucólico campo. A feira, a rua, o jardim, a catedral, o burgo, o convento, tudo se misturava na grande confusão da chegada da vida citadina. Beth Jobim nos pede uma ordem. A ordem da pedra: dura, seca e fundamental, ao mesmo tempo a forma material da poesia de uma geometria que se torce num acontecimento único no qual figura e fundo, plano e profundidade se interpenetram para deixarem de existir na pintura azul e branca. É como se tornasse visível a passagem de João Cabral: “A lição de moral, sua resistência fria / ao que flui e a fluir, a ser maleada; / a de poética, sua carnadura concreta; / a de economia, seu adensar-se compacta; / lições da pedra (de fora para dentro, / cartilha muda), para quem soletrá-la.”