Negar a Firmeza Precária das Coisas
Paulo Sérgio Duarte  

Texto da Exposição - Centro Cultural de São Paulo, São Paulo - 2003

 
 

Passa um vento pelos rochedos vazados. São notícias do vazio no qual se transformou toda profundidade. Vento que desmancha até mesmo as pedras. Desfaz o desenho e acaba com a rigidez do mundo. É preciso negar a firmeza precária das coisas para reconstituí-la na realidade da arte.

 

Que mar ousaria bater nessas pedras quando seu branco já é o próprio oceano? Temos, finalmente, uma terra plana onde se navega até o limite de seus horizontes - o quadrilátero do papel. Mundo feito de tantos mundos, montados, justapostos, contínuo aqui, logo ali um desencontro, numa clara evidência que tudo é construção. Feito também do volume ousado, audacioso demais para a superfície que o domina: os corpos se esboçam para logo se desfazerem no deserto branco do papel. Quem habita esses corpos, que parecem não suportar a si próprios, senão o mesmo que se encontra fora? As pedras existem para limitar o vazio, dar-lhe uma forma, cercá-lo e contê-lo numa absoluta exterioridade.

 

Todos insistem: são desenhos. Agora, realizam a virtualidade dos monumentos que já indicavam quando eram apenas esboçados nas mais modestas dimensões. Quando foram experimentados em linhas frágeis que contornavam as figuras das pequenas pedras. Cresceram. Nunca precisaram inventar um abismo, nem supuseram um simulacro de vertigem. Afinal de contas, não há mais clima para a verdadeira queda. No máximo, haveria um tombo ridículo.

 

Na escala mural, se existe um referente, é alusivo à pedreira onde a engenharia dos homens teima em morder a natureza. Está ali, em movimento na superfície do papel. A artista não tem escolha, talvez finja que desenha, mas pinta. E poucas esculturas subverteram e redefiniram a noção intuitiva que trazemos de espaço como essas pinturas. Dilatou o espaço, me colocou numa praça, sozinho, sem a multidão e seu burburinho, na cidade deserta feita de pedras. Desorientou meus pontos cardeais e não me submeteu a nenhum tempo em camadas, que teria sido acumulado em sucessivas operações estabelecidas pela tradição do trabalho pictórico. O tempo de sua realização, ao contrário, é aquele absolutamente visível e atual, tempo da construção simultânea do dentro e do fora que se confundem, que se imiscuem um no outro, que se apresentam como vazio e, ao mesmo tempo, lugar do trabalho que o delimita. É uma pintura que se afirma tanto onde se encontra, como nos vazios que determina pela sua ausência.

 

Quando tratou da escultura de Franz Weissmann, Alberto Tassinari encontrou a bela imagem contida na idéia de “espessura do espaço” para definir a questão da sua obra. O espaço trabalhado pelo artista construtivo, portador dos melhores valores da alta modernidade, é ainda o mesmo da noção clássica grega, aquele que permitiu o desenvolvimento da geometria euclidiana. O ponto histórico no qual se encontra a pintura de Elizabeth Jobim é outro inteiramente diferente e não permite nem mesmo hipostasiar o espaço. As metástases em que se transformaram as grandes metrópoles e seus fluxos culturais, que se constituem desde as tribos dos subúrbios até os grandes condomínios financeiros globalizados, corroem até o uso metafórico da noção de espaço. Nesse ambiente, por que não buscar a possível neutralidade das sólidas pedras para redefinir a questão?

 

A transparência, a tênue película que a tinta forma sendo absorvida pelo papel, a aversão à presença da matéria, a cumplicidade com a força da gravidade que completa a presença da cor e atua na superfície, tudo colabora para assistirmos a uma reposição das questões da profundidade na pintura depois do esgotamento da moderna investigação planar. A pintura de Elizabeth Jobim elabora e desenvolve o problema sem olhar para trás: não há nostalgia da perspectiva. Recurso que, com seus pontos de fuga, sempre implicou em olhar para frente, para o futuro que se deslocava em direção ao infinito. Tampouco insiste em permanecer reiterando a questão cubista. O olhar tem que assumir sua atualidade. Não encontra espaços para representação.

 

O vazio sempre foi atributo do conceito platônico de espaço, mas se observo o problema com mais cuidado, verifico que, abandonados os códigos da representação e os de sua destruição, a questão da profundidade se transforma e destitui o lugar do espaço para substituí-lo pelo do seu atributo, o vazio. Nesse novo lugar, o vazio se desloca de uma posição adjetiva para uma substantiva. Há, sim, nessa pintura, a pergunta constante sobre que profundidade é essa que, hoje, sem pontos de fuga, se encontra livre e destituída de qualquer corpo na espessura do vazio. É, também, para tornar isso visível que, a meu ver, pedras e rochedos são pintados por Elizabeth Jobim.