A Idade das Pedras
Paulo Venancio Filho
Texto da Exposição - Gabinete de Arte Raquel Arnaud, São Paulo - 2001

 

 
 

Por que essas coisas tão inóspitas, tão sem-assunto, pedras? Pedras são pedras, sem mistério, alegoria, símbolo — coisa à-toa, para se chutar. E esses desenhos se referem a pedras de diversas maneiras. São quase um estudo da pureza sólida do mineral. Matéria, forma, peso estão aí bidimensionalizados. Mas estão, especialmente, como coisas comuns e sem atrativos que amontoados ao acaso formam um conjunto que nada mais é do que uma natureza-morta de pedras. Algo verdadeiramente inédito, que se imaginássemos uma land art miniaturizada, teríamos a Spiral Jetty de Robert Smithson sobre a mesa, posando. E a referência ao escultórico — até ao monumental — não é descabida aqui, pois esses desenhos trazem, indiretamente, todo o processo de desmaterialização da escultura desde a modernidade — a certeza do dentro e fora dos corpos que a escultura foi desfazendo ao longo do tempo.

 

A mútua invasão dos espaços que os desenhos de Beth Jobim percorrem revela a contiguidade e continuidade de duas formas de apreensão que fazem parte do dia-a-dia. Ao observarmos algo estamos dentro de um todo do qual o observado é a parte dimensionada pela atenção. Esta dá ao observado uma dimensão que desaparece, ou é relativizada, quando desviada, e tudo se redimensiona mais uma vez. Aqui um salto de escalas desliza entre o dentro e o fora dos espaços físicos sensíveis e da imaginação. A atenção flutuante transborda dos limites dimensionáveis e saltamos do macro ao micro.

 

Esses desenhos se especializaram numa técnica topológica do mergulho. Um plongée, próximo daquele da câmara cinematográfica. As formas seguem a desorientação do líquido que escoa entre fluido e sólido, um tanto sem direção — entre profundidade e planaridade resta escorrer; drip apenas. Ao criar um espaço imaginativo suficientemente abstrato e minimamente corpóreo, topologicamente mutante, o desenho tudo faz para atingir um estado de constante escorrer — matéria dissolvida no tempo.

 

Estar dentro da pedra e vê-la de fora, num salto de dentro para fora. Por isso, é claro, a metáfora da piscina (matisseana) indica mais que o meramente visual. Um trânsito sinestésico dos sentidos estabelece a circularidade entre natureza e natureza-morta, vida e objeto, representação e existência. Temos um discreto exercício do espaço vivido, em duas direções. A ordenação cuidadosa dos elementos e o cálculo da linha do horizonte se expande até o mergulho, onde a “atmosfera do corpo” domina. Por outro lado somos levados a uma atenção lúcida diante de uma genealogia histórica das pedras. A pureza física de sólidos é o que atrai. Temos pedras de todas as idades, umas velhas, outras jovens, em plena infância e também na senectude. Pedras, coisas que agora quase chegam a ter alma — alma do que nunca foi natureza-morta.

 

O desenho/pintura transita pela indecidibilidade fenomenal das coisas e uma percepção fluida medita atentamente a reversibilidade da experiência do mundo — dentro e fora. Resta perguntar se uma cidade que existe em meio a pedras e água também não está nesses desenhos.