Em Azul
Taisa Palhares

Texto da Exposição - Pinacoteca, São Paulo - 2010

 

 

 

 

Artista que inicia sua trajetória na década de 1980, Elizabeth Jobim vem desenvolvendo uma produção que busca repensar a pintura sob o ponto de vista contemporâneo e a partir dos impasses impostos pela arte moderna. Jobim realiza desde os anos 2000 grandes instalações pictóricas em partes moduladas que são concebidas para lugares específicos, como é o caso de Em Azul, realizada especialmente para uma das salas da Estação Pinacoteca. Ao propor uma nova espacialização para seu trabalho, essas instalações transformam a desestabilização do campo perceptivo efetuada pela pintura moderna mediante o questionamento da relação entre figura e fundo na pergunta pela própria estabilidade do corpo e das coisas no espaço.

 

Como em trabalhos anteriores, a artista parte da observação de pedras que organizadas como naturezas-mortas dão origem a desenhos nos quais se manifesta seu pensamento inicial sobre o espaço enquanto intervalo e também ativador dos limites entre os objetos. Transpostos para a escala da sala de exposição, esses conjuntos se recombinam em uma nova seqüência de formas e linhas cuja descontinuidade de enquadramentos, cortes e arestas traz à tona a experiência da paisagem arquitetônica das grandes cidades contemporâneas. No espaço, criam um ambiente no qual noções de finitude e amplidão, cheio e vazio, peso e leveza, distância e proximidade são repostas a todo instante.

 

Contudo, nota-se que apesar de compostas por fragmentos ou partes, essas instalações buscam uma certa unidade paradoxalmente construída a partir da descentralização do olhar. Se por um lado, é inútil ou mesmo impossível estabelecer marcos estáveis para o trabalho, na forma de um início ou um fim rígidos, por outro, em seu ritmo suave, avesso a movimentos muito bruscos ou marcados, Jobim vai operando pequenos desencontros com momentos de quase imobilidade que incorporados ao todo de maneira harmônica dão fluidez ao conjunto.

 

Ao mesmo tempo em que se apropriam das dimensões reais da sala, essas instalações conseguem ultrapassar ou reverter seus limites físicos. Imersos neste espaço construído pela artista experimentamos a sensação particular de liberdade que se manifesta no amálgama entre o estar dentro e fora, ora fincados no chão, ora suspensos no ar. E se no caso do trabalho projetado para Pinacoteca a exatidão das linhas e das formas geométricas sugere a estabilidade de estruturas construtivas e os volumes aparecem como reminiscências da solidez daquelas pedras originárias, a capacidade de propagação da cor azul desmaterializa e dá leveza ao que, por suas dimensões, poderia se transformar em arquitetura monumental.